Ainda lembro do cortejo...a cantoria triste...minha roupa branca de condenado no contraste com a minha negra cor...aquela criança não sai da minha cabeça...caminhava curiosa ao meu lado, no compasso do tambor do militar...a marcha era fúnebre...alguns aproveitavam o momento para fazer dinheiro...o Mariano era um deles, sonhava com um bom pecúlio e a alforria um dia comprar...para mim isso já não bastava...logo depois da primeira chibatada, apaguei...acordei com os gritos de quem me delatava...senhor e senhora no chão...ainda corri...mas sabia que logo minha passagem por aqui estaria acabada...da cadeia para a igreja...logo a ponte sobre o arroio onde tantas vezes acompanhei o pôr-do-sol...e lá estava eu subindo os degraus...o homem da religião do rei na minha frente aos prantos fingia seu interesse por minha alma...e eu fingia não ter medo...quieto...sofri...o rufar dos tambores...meus olhos se fecharam...logo estacionou o barco...finalmente livre...naveguei...como o tempo, tornei-me múltiplo...resisti!

terça-feira, 18 de maio de 2010

Começaria Tudo Outra Vez

Começaria Tudo Outra Vez
Gonzaguinha

Começaria tudo outra vez
Se preciso fosse, meu amor
A chama em meu peito
Ainda queima, saiba!
Nada foi em vão...

A cuba-libre dá coragem
Em minhas mãos
A dama de lilás
Me machucando o coração
Na sêde de sentir
Seu corpo inteiro
Coladinho ao meu...

E então eu cantaria
A noite inteira
Como já cantei, cantarei
As coisas todas que já tive
Tenho e sei, um dia terei...

A fé no que virá
E a alegria de poder
Olhar prá trás
E ver que voltaria com você
De novo, viver
Nesse imenso salão...

Ao som desse bolero
Vida, vamo nós
E não estamos sós
Veja meu bem
A orquestra nos espera
Por favor!
Mais uma vez, recomeçar...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Soy mi huésped

Soy mi huésped
Mario Benedetti no livro Preguntas as azar

Soy mi huésped nocturno
en dosis mínimas
y uso la noche
para despojarme
de la modestia
y otras vanidades

aspiro a ser tratado
sin los prejuicios
de la bienvenida
y con las cortesías
del silencio

no colecciono padeceres
sin los sarcasmos
que hacen mella

soy tan sólo
mi huésped
y traigo una paloma
que no es prenda de paz
sino paloma

como huésped
estrictamente mío
en la pizarra de la noche
trazo una línea
blanca

luego soplo mi brisa
y los postigos y las ramas
tiemblan

como huésped de mí
sé de mí lo que pienso
no es gran cosa

armo mis barricadas
contra el sueño
a pesar de que el sueño
las derribe

soy mi huésped
a qué regarlo
pero
a veces también soy
un extraño de mí

cuando mi rústico
anfitrión
me mira
siento que estoy
demás
y me escabullo

sábado, 15 de maio de 2010

Eu apresento a página branca

Eu apresento a página branca
Arnaldo Antunes no livro Tudos

Eu apresento a página branca.

CONTRA:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

Contra a água.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Lamento Sertanejo

Ontem, fiz as pazes com aquele outro homem negro.
Lembro-me muito bem quando brigamos.
Ele havia ído a Satolep naquelas coisas de poder...reinaugurar um monumento. O monumento estava revitalizado. Um chafariz europeu sob os vestígios do pelourinho, martírio do meu povo e de tantos outros.
Fiquei enfurecido...como aquele homem negro que cantou tantas coisas bonitas dos nagôs, gegês, poderia esquecer de tudo...
Lembro que saí a caminhar...fazia frio...numa bodega ouvi um som...era um rádio...o homem falava...o povo aplaudia...entristeci-me...me lagrimei.
Anos depois consegui perceber que não avisaram o homem daquilo tudo...do que existia ali...depois daquilo, o homem negro foi o primeiro que teve no poder cantando os ditos populares...incentivando-os...respeitei.
Ontem, nos olhamos cúmplices...vi que ele cantou pra mim, eu pra ele...fazíamos as pazes.
O homem negro não precisou fazer discursos...sua música, sua ginga, sua cantoria, era o próprio povo negro, mameluco, branco, colorido...povo esguio...de gente sofrida que não perde fé na vida.
Sabe, ainda acho que eu e ele viemos no mesmo navio...
Obrigado Gilberto Gil!


Lamento Sertanejo
Gilberto Gil e Dominguinhos

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.

Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo.
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo.

Naveguei

Ontem falhei o post diário pela primeira vez.
Andava navegando por outros portos...retornava ao rio Nilo...quando avistei.
O tempo parou. Atraquei.
Logo percebi que como dizia o poeta, o tempo não pára não. Que bom...experiências...avante siempre!
Voltei ao rio, levantei a âncora...feliz, naveguei...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A Carlos Drummond de Andrade

A Carlos Drummond de Andrade
João Cabral de Melo Neto no livro o Engenheiro

Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Rumo ao sumo

Rumo ao sumo
Paulo Leminski no livro La vie en close

Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.

Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.