Ainda lembro do cortejo...a cantoria triste...minha roupa branca de condenado no contraste com a minha negra cor...aquela criança não sai da minha cabeça...caminhava curiosa ao meu lado, no compasso do tambor do militar...a marcha era fúnebre...alguns aproveitavam o momento para fazer dinheiro...o Mariano era um deles, sonhava com um bom pecúlio e a alforria um dia comprar...para mim isso já não bastava...logo depois da primeira chibatada, apaguei...acordei com os gritos de quem me delatava...senhor e senhora no chão...ainda corri...mas sabia que logo minha passagem por aqui estaria acabada...da cadeia para a igreja...logo a ponte sobre o arroio onde tantas vezes acompanhei o pôr-do-sol...e lá estava eu subindo os degraus...o homem da religião do rei na minha frente aos prantos fingia seu interesse por minha alma...e eu fingia não ter medo...quieto...sofri...o rufar dos tambores...meus olhos se fecharam...logo estacionou o barco...finalmente livre...naveguei...como o tempo, tornei-me múltiplo...resisti!

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Doces e miúdos gestos


Doces e miúdos gestos
Belizario, outono 15.

Sou devoto das coisas pequeninas,
Das sutilezas cotidianas.
Descuidadas dádivas...
Os jeitos e trejeitos de uma pessoa.
Como são doces os miúdos gestos!
Como é amarga a vida
 de quem espera, ou sobrevive
 apenas com atos grandiosos.
Perde a resistência que se faz diária,
O aprendizado da convivência.
Perde a singeleza do sorriso...
Perde minha capacidade de intensificar o amor...
Que é só boniteza.

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